Vou ser mamãe

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Meu Perfil


Andrea Salomão

Eu estou virando a minha mãe.
Minha mãe fez reposição hormonal, e usa adesivos que sempre esquecia na pia do banheiro.
Eu odiava.
Hoje, faço igual, com meu anticoncepcional durex.
Minha mão tinha a pele bem firme, e eu gostava de puxar a pele da minha mãe, que desgrudava.
A pele de minha mão está ficando igual.
Eu brincava de maquiagem com minha mãe, e achava a maior dificuldade pois sua pálpebra tinha mais pele que a minha.
Ontem fui me maquiar.
Adivinhem.
Minhas pálpebras estão ficando iguais.

Tenho 34 anos, pele clara cabelos escuros.
Desde os 31 eu digo que tenho 31.
Todos sabem que é mentira, mas eu gosto de ter 31.
Apareceram uns 4 fios de cabelo branco.
Sei que isso é sorte.
Tenho amigas que têm muito mais.
Se ficar branco não quero pintar.

Engordei e estou com dificuldade para perder peso.
Estou com celulite na barriga.
Ontem fiz escova no cabelo e pintei minha unha de cor de melancia.
O Marcelo odiou a cor de meu esmalte.
Todos que viram a cor de meu esmalte odiaram.
Eu adorei.
Tomei 3 caipirinhas de saquê.
Tirei minha maquiagem antes de dormir.

Gostaria de ter estudado numa sala com alunos 1 ano mais novos.
Isso aconteceu na faculdade.
Eu sou um ano mais nova que minha idade real.

Meu olho direito é mais caído que o esquerdo.
Eu confundo direita e esquerda.
Mas o olho é o direito mesmo.

Eu nasci em Cruzeiro.
Morei em Santo André.
Morei em São José.
Morei em São Paulo.
Morei com meu Tio.
Ele já morreu.
Zé Cláudio
Sinto saudades.
Dele, de Tia Maria, Tio Marcílio, Tio Carlito, Ita
Maria, Sr. Munhoz
Saudades dos meus tios vivos.
Tia Zélia, Tereza, Therezinha, Maria Helena
Saudades de Carla Lira, de Fafá, Clarita.

Morei em república.
5 amigas
Clara Granja
Michele
Fafá
Maitee

Paulista.
Hospital Santa Catarina
Casa das Rosas
Beneficiência Portuguesa
Centro Espacial
Agatha

Vila Carioca
Shell
Moema
Billiton Metais
Centro empresarial
Longe, longe, muito longe.

Trabalhei em São Bernardo.
Cansei de chuva e inundação.
Me mudei para o Interior.
De moradia e de trabalho.

Morei com meus pais.
Bicicleta atropelou meu pai.
Coma.
Esqueci o nome do hospital.
Minha mãe fez ponte de safena.
Depois teve derrame.
Ficou com sequela.
Pio.
Esqueci o número romano do Pio.

Casei.
Com o amor de minha vida.
Conheci aos 14 anos.
Foi meu primeiro beijo.
A gente brigou.
Ficamos 12 anos longe.
A vida continuou.

1998, dezembro, a Grá perguntou:
Você acredita em alma gêmea?
Disse que sim, que era o Marcelo, mas não tinha dado certo.
Exatamente um mês depois, comecei a namorar o Marcelo.
Ele mesmo.
Marcelo de meus 14 anos.
Marcelo minha alma gêmea.
Marcelo que achei que não tinha dado certo.
Marcelo que é meu marido.
Pai de minha filhota.
Ascendência Sírio-Libanes.

Barriga.
Celina.
Amor maior do mundo.
Luz dos olhos.
Criança.

Tínhamos um caminhão.
Roubaram.
Perdemos tudo.

Abrimos um restaurante.
Idéia minha.
Escolhi o nome
Significa: amigos, sejam bem vindos.
Vivemos no sufoco.
Muitas dívidas.
Ele trabalha muito.
Está cansado.
Está feliz.

Minha vida.

Feliz.

.

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Sexta-feira, Maio 16, 2008
Pequenos prazeres

Ficar mais meia horinha na cama, nos dias frios.
Escovar os dentes após o almoço.
Ganhar beijos ao buscar Celina na escola.
Ver as garças voltando prá casa, à tardinha.
Comer brigadeiro.
Fazer xixi, depois de ficar bem apertada.
Rir de uma boa piada.
Sair hoje à noite para comemorar aniversário de casamento.

Postado por: An 10:47 AM comente:
Quarta-feira, Maio 14, 2008
Se correr o bicho pega.
Se ficar o bicho come.
O bicho é o câncer.
Correr é operar.
Ficar é esperar, e deixá-lo ali, comendo lentamente.

Isso se não houver metástase.
Pois ela está amarelinha, e pode ser metástase no fígado.
Se for, não opera e deixa o bicho comer.
Apenas com um tratamento paliativo.
Se não, a decisão é dela. Só dela, que está consciente.

O que eu penso?
Não sei...
Não sei...
Não sei!

Dá prá gritar aqui no post que eu não sei?

NÃO SEI!!!!!!

Morrer é morrer.
Sou católica, quero que ela se confesse, para ir pro Céu, se encontrar com sua mãe, que não vê desde os 7 aninhos de vida. Com seu pai, que não vê desde os 16. Com a Naomi, minha irmãzinha que nasceu morta. E com a Tia Maria, sua querida irmã, sua amiguinha.
Morrer é não ter ela por aqui, nunca mais, acabou, the end.

Viver com o câncer é um mistério, é um futuro sombrio.
É a possibilidade de dor, de sofrimento, de definhar. É talvez ficar na cama para todo o sempre, com péssima qualidade de vida. É viver sem estar viva. É depressão, escara, pneumonia, metástases e dor, muita dor, dor que morfina não faz passar.
É tê-la, apesar dela não ser mais, exatamente, ela.

E existe a possibilidade de correr e o bicho não alcançar.
Tirar o câncer e sobreviver.
Quem sabe? Só Deus é quem sabe...
Como, então, decidir?

Que Deus abençoe a todos nós, para que seja tomada a melhor decisão.



Postado por: An 9:28 AM comente:
Sexta-feira, Maio 09, 2008
Tarde de autógrafos

Toda concentradinha, autografando o livro digital, deixando-nos super orgulhosos.



Fazendo pose prá foto, com cara de maluquinha.


Postado por: An 4:35 PM comente:
Quarta-feira, Maio 07, 2008
Ontem eu voltei à psicóloga.
Andei meio apática em relação a tudo o que vem acontecendo e acho isso perigoso.
Foi assim que me senti depois de perder meu 2º bebê, antes de cair em depressão.
E agora eu não posso. Preciso ficar forte, pois tenho a Celina para cuidar, e este bebezinho dentro de mim.
A psicóloga pergunto se estou conseguindo curtir a gestação.
Infelizmente não. Estou torcendo para quando descobrir o sexo me animar um pouco.
Em compensação, Celina curte por nós duas.
Ela conversa todos os dias com o "nosso nenê". Diz que ele quer falar com ela, levanta a minha blusa, afasta sua cabeleira do ouvido e o cola pertinho do umbigo. Fica ouvindo o nenê e depois me passa o recadinho. Normalmente ele pede prá ela o que quer comer. E ela me faz prometer que vou comer, para fazer a vontade dele. Tem dias em que ele diz que a ama. E ela se declara, e beija a barriga.
É lindo este faz de conta apaixonado pelo irmãozinho.
E eu estou tão desligada, que me olhei no espelho hoje, toda encapotada e pensei assim: nossa, estou com tanta roupa que estou até barrigudinha.
Só depois que me lembrei que a barriga não é de muita roupa, hehehe.

Obrigada a todas as amigas que passam por aqui, deixando recadinhos ou somente orando pela minha mãe.


Postado por: An 4:02 PM comente:
Segunda-feira, Maio 05, 2008
Tem dias em que trabalhar é um fardo muito, muito grande.
Mas quando se vê uma mulher que trabalhou a vida inteira, presa à uma cama de enfermos, os valores mudam.
Agradeço a Deus pela minha saúde, por estar firme e forte no meu trabalho, que é meu ganha pão, que alimenta a alma.
Trabalho enobrece.
Todos os dias somos abençoados com dezenas de graças. E não vemos. Passa batido. É como nada.
Hoje acordei bem cedinho, ainda noite, para voltar à academia. Tenho medo de desenvolver diabetes, que foi o grande criminoso na saúde de minha mãe.
Quero me cuidar, fazer meus exames preventivos, cuidar de minha mente, meus sentimentos.
Minha pressão, a cada susto sobe.
Isso não faz bem para mim, nem para o bebê.
Estou tentando aceitar o que houve com minha mãe da melhor maneira possível.
Quarta-feira, seu médico quer uma reunião comigo e com minha irmã. Temo o que vamos ouvir.
Ele quer fazer a cirurgia para retirar o tumor.
É a vida entregue nas mãos de Deus.
Minha mãe teve 15 irmãos. É a caçula. Hoje só restaram duas irmãs vivas. Seus pais morreram cedo. Perdeu minha avó com 7 anos de idade e meu avô com 16. Muitos de seus irmãos nem chegou a conhecer.
Ela tem 74 anos. Faz 75 em agosto.
Considerando sua vida sedentária, a diabete, a ponte de safena, sua herança genética e todo o resto, vejo que ela até que viveu bem.
Peço a Deus que não sofra mais ainda. Estamos nos adaptando à vidinha repleta de cuidadores e todo o trabalho que isso gera.
Mas ela está ali, conosco, com seus altos e baixos de ânimo.
Que ela fique o quanto Deus nos permitir, sem dor, sem sofrimento, rodeada de amor.

Postado por: An 9:20 AM comente:



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